Argumentos de Merda - parte 1 - o Homem de Palha


De vez em quando temos que argumentar, seja para convencer alguém a fazer algo que precisamos ou para competir por um resultado. Até aqui eu vinha falando sobre o preço de construir uma opinião sólida, agora quero mostrar - em uma série de três artigos - que é importante também saber como não usar argumentos ruins e acabar com uma discussão que terminaria em um bom resultado. 

Existem três tipos de argumentos ruins, ou falácias lógicas: O homem de Palha, o Homem Vazio e o Homem de Ferro.

O Homem de Palha

O argumento do homem de palha é uma distorção de uma opinião ou ponto de vista. Assim como uma pessoa que é feita de palha é mais fácil de bater que uma pessoa de verdade, um argumento de homem de palha é mais fácil de derrubar. Por mais que pareça uma pessoa real à distância, esse argumento é apenas um formato de argumento na discussão que está acontecendo. Para quem está fora da discussão, pode parecer legítimo, mas falta semblante e força. A função desse argumento é realmente ser fácil de refutar. Não é um desafio, não é um inconveniente, é só um argumento de merda mesmo. Ele não precisa nem ser inválido, ele só não é relevante.

É importante não confundir o argumento do Homem de Palha com um resumo simplificado de um assunto complexo. Às vezes, em um debate, é necessário explicar a base da opinião sem entrar em pormenores. Nesse caso, a explicação precisa ser rápida e com o objetivo de deixar as coisas claras. Já o argumento do homem de palha é usada só para atacar.

Vamos as táticas comuns usadas para construir argumentos do homem de palha (e garanto que já viu todas elas no grupo da família discutindo política):

Uma delas é o per fas et nefas (o Latim para certo e errado) e é simples: eu pego um pedacinho do argumento da outra pessoa que se prova errado e uso ele para descreditar tudo o mais que a outra pessoa disse. O foco é pegar uma parte menos importante ou irrelevante do argumento e implodi-lo. Mesmo que eu não tenha como refutar o resto do argumento, o trabalho está feito.

Tornar um argumento simplista,removendo nuances importantes, faz ele ser mais fácil de atacar. Um exemplo é o argumento da manteiga, que diz que a vida não pode ter existido por evolução natural porque não vemos a vida espontaneamente aparecer dentro de um pote de manteiga. O argumento diz que a teoria da evolução afirma que a vida emergiu de uma simples combinação de calor e matéria, ambos presentes em um pote de manteiga. É um argumento de homem de palha porque pega apenas um detalhe da teoria da evolução como se fosse toda a teoria. O defensor da teoria é pego defendendo uma posição que ele nem deveria defender: porque a vida não aparece espontaneamente em um pote de manteiga.

O oposto também funciona: exagerar uma linha de raciocínio ao ponto do absurdo, fazendo ela ser fácil de refutar. Um exemplo seria dizer que um político que não se opõe ao aborto é a favor de matar bebês. Vendo isso como um ponto de vista fraco e que ninguém teria, o político se vê obrigado à defender as leis anti-aborto para não correr o risco de perder o debate e ser chamado de hipócrita. (Clássica visão em preto e branco).

Argumentos de homem de palha que respondem à pontos irrelevantes da discussão envolvem pontos ad hominen, (quando se ataca o interlocutor, ao invés do argumento) - por exemplo, respondendo que a energia eólica não é melhor para o ambiente que a energia fóssil "porque as turbinas eólicas são feias". Um argumento com uma óbvia ponta solta, porque a aparência das coisas não tem nada a ver com seus benefícios para o ambiente. Esse é um clássico argumento de merda usado quando não se tem mais nenhum argumento (e muito comum no grupo de política da família). 

Por fim, usar parte de um argumento fora de seu contexto como se fosse seu argumento é outra prática do homem de palha. É só remover as partes contraditórias, usando aspas. Por exemplo, cartazes de filmes e de livros usam críticas negativas fora de contexto para serem positivas. Fica assim: "é incrível como esse filme consegue ser ruim" que no cartaz se torna "incrível" ou "o livro perfeito para quem quer morrer de tédio" torna-se "o livro perfeito." Críticos vivem uma batalha diária para não escrever frases que possam ser usadas dessa forma.

(Enquanto eu escrevia esse artigo pude me lembrar de dezenas de pessoas que conheço que usam essas táticas, mas e eu? Quando eu as uso?)


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