Argumentos de Merda - parte 3 - O Homem de Aço


A maneira mais poderosa de evitar usar um argumento ruim e de desencorajar o seu uso pelos outros é seguir o princípio da caridade e abraçar a parte mais forte e persuasiva dos argumentos. Nesse caso, eu suspendo a descrença e ignoro minhas próprias opiniões por tempo o suficiente pra entender de onde esses argumentos vem. Reconheço o lado bom de cada caso e testo suas forças. Faço perguntas para deixar claras quaisquer dúvidas. Me faço curioso da perspectiva de outra pessoa. Posso até não mudar de ideia no final, mas pelo menos vou aprender algo que reduza o conflito no processo.

“Melhor debater uma questão e não resolver nada do que resolver tudo sem debater a questão.”

— Joseph Joubert

O filósofo Daniel Dennett oferece uma linha guia do princípio da caridade:

1 - Tento expressar o ponto de vista de outra pessoa de forma tão clara, tão vívida, tão justa que a pessoa diga: "Obrigado, eu gostaria de poder expressar minha ideia tão bem assim."

2 - Tento listar todos os pontos de concordância primeiro, especialmente se eles não são pontos de vista comuns.

3 - Tento sempre mencionar o que aprendi com a outra pessoa.

4 - Aí sim, finalmente, falo sobre cada ponto de conflito.

O Homem de Ferro

Um argumento que é a versão mais forte do ponto de vista do oponente é conhecido como o Homem de Ferro. É construído para ser o mais difícil de atacar possível. A ideia é de que só posso dizer que venci um debate quando lutei contra um homem de ferro - não um homem de palha. Como sou escravo do atalho mental - o viés - de atacar sempre o lado mais fraco do argumento, muitas vezes sem perceber, isso leva à um erro por excesso de cuidado. 

Por mais difícil que pareça, serve à um propósito maior. Os argumentos do homem de ferro me ajudam a entender uma nova perspectiva, por mais idiota que pareça, pelo menos para me posicionar melhor e ter sucesso em uma conexão no futuro. Mostra que sou empático e quero ouvir, independente da minha opinião pessoal. O ponto aqui é ver as forças, não as fraquezas. Se abrir minha mente ao invés de combater, pelo menos eu aprendo.

“Quem só conhece seu lado de um caso, conhece pouco”

— John Stuart Mill

Um exercício de homem de ferro, o teste ideológico de Turing, propõe que eu não posso dizer que entendo a posição do oponente enquanto eu não puder argumentar à favor dele de forma que ele não consiga mais perceber de que lado estou. Em outras palavras, eu não devo ter nenhuma opinião que eu não consiga argumentar contra. É um experimento de pensamento muito importante para entender de onde o oponente vem.

Mesmo que eu não tenha a chance de fazer isso todas as vezes que eu discordo de alguém, quando um debate realmente tem consequências importantes, o teste ideológico de Turing pode ser uma ferramenta útil para saber se estou preparado.

Como lidar com as pessoas que usam argumentos de merda 

É irritante. Estou em um debate com alguém com uma opinião diferente da minha. Estou ouvindo e respondendo para a versão homem de ferro da opinião dela, ficando calmo e respeitoso. De repente, percebo que meu oponente não está me ouvindo e começa a usar argumentos de merda. 

O que eu faço é apontar o argumento. Tento explicar que o que a pessoa está fazendo não está ajudando. Não uso esses jargões aqui como "seu argumento é um homem de palha bla bla bla" porque explicar falácias lógicas não vai me ajudar em nada. Também não adianta usar um "te peguei!" porque só aumenta a tensão. É melhor redefinir o conceito e aí reiterar minhas crenças e como elas diferem do argumento ruim que estou ouvindo.

É sempre bom lembrar que é difícil saber se o oponente é malando e está distorcendo o argumento ou se só falhou em entender ou interpretar o que está dizendo. Por isso é bom recomeçar a conversa sempre que isso acontecer.

Se, por fim, não funcionar, eu tento ficar repetindo o ponto de vista original e não me defendo do argumento ruim. E se eu perceber (e tiver certeza) de que o oponente está usando um argumento ruim só para não me dar razão e não quer melhorar as coisas eu simplesmente encerro o assunto e vou embora.

A realidade é que a maioria dos debates que temos não são racionalizados, são emocionais. Isso é ainda mais verdade quando estou emocionalmente envolvido com as pessoas no debate. Então, melhor só ir embora. 

Só não faço isso de forma infantil. Não como birra. Não esperando que a outra pessoa me diga "- espere!" e corrija seu argumento. Quando vou embora eu vou mesmo e esqueço a pessoa e o problema de vez.

Em um mundo com 8 bilhões de habitantes, a vida é muito curta para ficar discutindo com quem não quer melhorar as situações.


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