O inconveniente, chato, insuportável que pagou o preço


Quando eu penso no mundo em que vivo e nas organizações em que trabalho (não mais, oh, eu não!), não consigo parar de pensar que poucas pessoas tem a honestidade intelectual, o tempo e a disciplina que são necessárias para se ter uma opinião. Opinião dá trabalho e é por isso que existem tão poucas.

Uma vez li que "você reconhece um idiota em qualquer pessoa que não consiga ficar meia hora sem fazer nada" - na época reconheci um idiota imediatamente ao olhar no espelho. Todos temos um viés psicológico para a ação e, mais importante, para a aparência de sabedoria

Pensa bem. Quando foi a última vez que ouviu alguém dizer eu não sei? A minha experiência diz que quanto maior o cargo e a responsabilidade da pessoa, menos vou ouvir essas três palavras.

Ocupado demais para pensar

Não quero que meu chefe saiba que não sei. E se sou o chefe, não posso deixar que saibam que não sei. Tenho muito dessa necessidade de valor enrolada na minha profissão e na opinião dos outros sobre mim.

E porque eu não sei, eu falo através de abstrações e neblinas. A aparência de conhecimento vira meu capital.

Eu lá tenho tempo para me dar o trabalho de ter uma opinião? Eu tenho emails para responder, tenho essa questão urgente pra resolver, esses papéis que preciso mudar desse lado da mesa pro outro! Não vou pagar o preço. E sei que mais ninguém vai.

Melhor ilustrar com uma história:

Recebi uma proposta de 4 páginas faltando 15 minutos para o fim do expediente. A proposta seria debatida no dia seguinte em uma reunião com 12 pessoas.

Para refletir seriamente a proposta, eu vou ter que ficar trabalhando até mais tarde. Preciso desligar qualquer distração ao meu redor e ler o documento do início ao fim. Quem, hoje em dia, tem tempo para ler 4 páginas? (Então eu dou aquela "batida de olho")

Se eu realmente quisesse fazer o trabalho necessário para ter uma opinião eu teria que: 

- ler o documento do início ao fim;
- debater o assunto com alguém;
- ouvir os argumentos dos outros - os à favor e os contra;
- verificar os fatos;
- falar com alguém que já passou por algo parecido antes;
- verificar se o problema não está sendo visto de uma visão ampla ou estreita demais;
- ter certeza que a solução resolve mesmo o problema.

Então... não faço isso. Ainda assim eu preciso de uma opinião para a reunião, ou, melhor ainda, algo que soe bem. Então eu "bato o olho" no documento procurando por algo que eu possa afirmar; algo que sinalize que eu pensei sobre o assunto, mesmo sem ter pensado.

E aí eu gasto um tempo que eu deveria estar aprendendo e compreendendo correndo ao redor do assunto para fazer parecer que eu sei. Literalmente correndo atrás do rabo, fingindo que trabalho.

Apareço na reunião no dia seguinte para discutir a proposta mas meu verdadeiro objetivo é esperar um segundo de pausa na conversa para inserir minha frase pronta, deficiente de fatos, genericamente obscurecida na conversa. Afinal, preciso manter a aparência.

E a proposta chega a uma conclusão! Mas alguém tinha dúvidas sobre isso? Quando eu paro para pensar, era a decisão mais fácil do mundo. Pensa bem, se eu tenho uma sala cheia de pessoas super espertas todas concordando com a melhor maneira de proceder... quando isso acontece? Um problema fácil desses não precisava nem de um memorando, que dirá uma reunião!

É muito fácil concordar quando ninguém está pensando.

E as nossas organizações nos incentivam a esse tipo de raciocínio.

Se o grupo acertar na decisão, leva o crédito. Mas, se por acaso, as coisas ficarem ruins, ninguém leva a culpa. Decisões em grupo, especialmente as que tem consenso, permitem que os participantes façam uma difusão da resposabilidade.

Se eu falar com alguém que está familiar com a situação posso dizer que "estávamos todos errados"  ou que "pensamos todos a mesma coisa."

Mas se eu falo com alguém que não conhece a situação posso dar uma de esperto e meter um "falei pra eles que ia dar merda, mas ninguém me ouviu!" Sabendo que a pessoa não pode provar o contrário.

E assim, um a um, todos os que estavam na reunião foram absolvidos.

A alternativa é desconfortável

Digamos, então, que eu, ao invés de voar do trabalho na hora, tenha ficado até mais tarde fazendo o trabalho. Eu chego em casa as 11 da noite, exausto, mas confortável com uma opinião super bem pensada na proposta. Talvez duas coisas aconteçam nesse ponto: Se eu fiz o trabalho e cheguei na mesma conclusão posso pensar que desperdicei 6 horas da minha vida. Mas se, porém, eu cheguei a uma conclusão diferente, as coisas ficam mais interessantes:

Chego na reunião e menciono que pensei bem e cheguei à uma conclusão diferente - de fato, eu determino que a proposta não resolve o problema. É só maquiagem.

Então eu falo. E agora eu estou arriscando ser taxado como encrenqueiro. Por que? Porque ninguém mais fez o trabalho.

Claro que eu vou oferecer um caminho lógico para todo mundo acompanhar meu raciocínio. Eu digo algo como: "Penso um pouco diferente nesse caso. Aqui está como eu vejo o problema e aqui está o que eu penso que são as variáveis. Aqui está como as pesei. Aqui está como eu penso os argumentos e sou contra isso. Perdi alguma coisa?"

Tudo exposto e o que eu consegui? Estou vulnerável às pessoas que não fizeram o trabalho.

Se todas elas concordarem, ótimo, muito bom, só que não. Porque elas foram levadas pelo pensamento racional e agora parece que elas fizeram o trabalho, quando elas só "bateram os olhos" nas minhas ideias.

Essa é a hora que eles precisam mostrar que realmente pensaram no seu raciocínio e formaram uma opinião diferente.

E é quando elas, ao invés de irem aos fatos, podem responder com jargões e linguagem corporativa - os fatos nunca aparecem em uma refutação.

Usando o incrível gerador de lero-lero, vou ouvir algo como "isso não conta para as sinergias" ou "isso não se alinha com o planejamento estratégico" (que eu nunca vi). Ou eles apontam para a sala do chefe que não está na reunião e mandam um "foi o que eu pensei também, mas o chefe, ah não, ele quer que seja feito assim!"

E foi assim que eu nunca mais fui chamado para a reunião porque todo mundo sabe que eu faço o trabalho e isso significa que eles serão obrigados a fazer também. Vão ter que pensar, antecipar argumentos. Me convidar significa mais trabalho. Não é nada pessoal. 

A pessoa que produz mais sempre será atacada por estragar a média da empresa.


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